Conhecer pessoas interessantes do mundo todo,
participar de leilões virtuais e comprar produtos usando apenas o mouse pode
parecer tentador. Mas é preciso ter cuidado, sob risco de a opção pela
comodidade acabar custando caro demais. Em ambiente virtual, empresas sérias e
golpistas dividem o mesmo ciberespaço.
Líderes absolutos em queixas nos
EUA, os sites de leilão são responsáveis por 42,8% das fraudes registradas,
segundo o relatório anual do Centro de Reclamações de Fraudes na Internet
(IFCC), órgão ligado ao FBI. Mercadorias não recebidas ou falta de pagamento
responderam por 20,3%. No total, as perdas com as fraudes relatadas ao IFCC
chegaram a US$ 117 milhões.
O programador carioca Frédéric Meunier foi
vítima, em fevereiro, de um golpe ao usar um site de leilão. Ele arrematou no
Mercado Livre um pente de memória por R$ 190. Recebeu os dados de quem estava
vendendo o produto e depositou o dinheiro na conta indicada. E nada de o tal
pente de memória chegar. Entrou em contato com o vendedor, por e-mail, e ele
prometeu que enviaria o produto. Nada. Ligou e não havia ninguém com o nome do
vendedor. O endereço fornecido também não existia.
Referências
"Eu arrisquei muito
porque era um vendedor novo, que não tinha indicações no site", diz Frédéric.
As "indicações" são comentários deixados por pessoas com quem o internauta
negocia. Uma espécie de ficha de referência que os clientes podem acessar para
conferir a índole do vendedor ou do comprador. É o mínimo que os sites
recomendam para que o internauta tenha um pouco de segurança. "Por trás de um
monitor é muito fácil praticar fraudes", afirma Stelleo Tolda,
diretor-presidente do Mercado Livre.
Nesses casos, o melhor mesmo é
tomar todas as precauções, pois os sites não se responsabilizam pelas fraudes.
"Não vendemos e não recebemos dinheiro. Somos equivalentes ao classificado de
jornal", diz Tolda. Intermediadores, os sites oferecem um espaço virtual, onde
duas partes são colocadas em contato, sem que os dados fornecidos sejam
checados. Fácil para os fraudadores, que podem usar informações falsas e
enganar clientes menos precavidos.
Além das indicações, os sites de
leilão recomendam checar os dados fornecidos e não depositar o dinheiro até
que se receba o produto. Ou optar por métodos seguros de pagamento, como o
Sedex a cobrar (em que a pessoa paga aos Correios o valor na hora em que
recebe a encomenda), ou serviços como o Paga Fácil, do Mercado Livre, com o
qual o cliente deposita o dinheiro em uma conta e o vendedor só recebe quando
o produto chega às mãos do comprador. Tolda admite que as precauções não
garantem que tudo vai dar certo, mas minimizam os riscos. "Nunca estamos
imunes a pessoas agindo com má-fé", afirma.
Depois de conquistar a
confiança de milhares de internautas, as agências de encontros online também
entraram na mira do FBI.
Muita gente tem sido prejudicada por um novo
tipo de golpe que usa os serviços desses sites.
Agência virtual
Segundo o jornal
britânico "The Observer", o motorista americano Anthony DiMario foi uma das
vítimas. Depois de trocar e-mails durante um mês com uma garota russa que se
identificava como Oksana Stolyarenko, ele resolveu conhecê-la pessoalmente. A
pedido dela, enviou o equivalente a US$ 3.350 para despesas com passagens e
vistos.
No dia da chegada, lá estava o motorista no aeroporto,
esperando a moça. E nada. Ninguém apareceu, muito menos o dinheiro de Anthony.
Tanto Oksana quanto a agência sumiram do mapa. Anthony descobriu que a garota
aparecia em vários sites, sempre com nomes diferentes.
No Brasil, não
se tem notícia recente de golpes parecidos, mas as empresas aconselham os
clientes a ficarem sempre com um pé atrás. "Temos 500 mil cadastrados. Não
tenho pretensão de dizer que isso não vai acontecer, porque foge do controle",
diz Roberta Vairolatti, diretora de marketing do site Par Perfeito.
"A
gente não sabe o que acontece entre os clientes, a não ser que venham nos
contar", afirma Míriam Bobrow, sócia do site Como Vai.
Como evitar problemas
>> Informe-se. Ao usar um site de leilão, procure saber como o serviço
funciona e quais ações a empresa adota em casos de problemas na
transação.
>> Endereço de
e-mail não é uma referência confiável. Tenha o endereço ou telefone fixo de
quem está negociando.
>> Desconfie
de empresas que usam serviços de e-mail gratuitos.
>> Na hora de pagar, prefira primeiro
receber o produto e depois efetivar o pagamento. Evite depositar o dinheiro
antes de estar com o produto em mãos.
>> Desconfie
das "ofertas especiais" que surgem em e-mails não-solicitados.
>> O método mais seguro de comprar pela Internet ainda é o cartão de
crédito, pois é possível cancelar a fatura se houver algum
problema.
>> Ao usar
cartão, veja se o ícone de cadeado do navegador (normalmente num canto
inferior da tela) está fechado.
>> Em sites de
relacionamento, não forneça seu endereço e telefone até adquirir confiança. Ao
marcar encontros, não deixe de avisar um amigo ou familiar sobre o local e
data.
>> Se a pessoa mora em outra cidade, não forneça dinheiro para
passagens ou outras despesas.
* Reportagem publicada no
Correio Braziliense em 04 de junho de 2002 e reproduzida
sob autorização.